Monday, March 26, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 14

Não conseguia respirar, um nó na garganta, um sufoco que lhe parecia o fim do mundo perfeito. As árvores outrora verdes ganhavam tons púrpura e vermelho.
Baixou-se mas mesmo assim o ar recusava-se a entrar nos pulmões, os trovões ouviam-se antes dos relâmpagos, o seu mundo estava todo ao contrário.
Pensou que nunca tinha imaginado que uma só acção pudesse destruir tudo. Como se o mundo estivesse preso por um fio frágil que a qualquer momento pode ser cortado.
A tentação, a tentação, a estranha atracção pelo abismo.
Levantou-se a custo apoiado à arvore, estava quente quase queimava. O nó na garganta, conseguiu respirar mas o ar tinha um sabor diferente.
Reparou que estava nu, sempre o tinha estado mas agora era estranhamente evidente, como se o sufoco lhe tivesse limpo o olhar, pela primeira vez teve medo.
A seu lado Eva encolheu os ombros e esboçou um sorriso que mais lhe pareceu um esgar.
Ficou com a sensação que a partir daquele momento é que realmente tudo iria começar.

Thursday, March 08, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 12

Já tinha levado quase tudo, as marcas que os quatro pés da estante deixaram no soalho de madeira pareciam pegadas mais escuras na areia molhada da praia à espera que o mar as levasse.
Levara a estante, ficaram apenas dois livros, caídos de borco no chão como dois suicidas esquecidos por debaixo de um viaduto.
Ela estava deitada na cama, o lençol cobria-lhe o corpo nu com uma leveza só igualável pela penumbra que aconchegava a cidade do outro lado da janela. Os néons lá fora de tão brilhantes pareciam mortiços.
Ele sentado na cama fumava um cigarro, o fumo saia sem pressa e quase se recusava a subir. Olhou-a e acariciou-lhe a coxa, o rosto dela contemplava placidamente a janela, os olhos verdes, o cabelo longo e loiro, perfeita, como sempre o tinha sido.
Ele levantou-se e colocou as mãos no parapeito, à excepção das luzes e das silhuetas dos edifícios nada existia lá fora.
Voltou-se e olhou-a de novo, era tão bonita. Levara quase tudo, deixara apenas a cama e os dois livros, voltara depois para levar mais coisas, ele não deixou, e achou-a bonita, até mais bonita do que antes apesar de já estar morta.

Thursday, February 15, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 11

Quem te avisa teu amigo é.
Descia a rua, o calor no peito, o suor frio na testa.
Descia a rua a correr, os braços a balançar a tentar apanhar um equilíbrio que já não conseguia ter.
Quem te avisa teu amigo é, dissera-lhe o pai vezes sem conta encostado ao umbral.
Corria pela rua, a mão aberta na ponta do braço estendido à sua frente, os carros voavam em sentido contrário, tudo lhe parecia rápido demais.
Quem te avisa teu amigo é, ouvira dizer de cada vez que regressara a casa, à barraca, para levar mais alguma coisa, alguma coisa que depois se derretia para entrar nas suas veias, alívio, o alívio é sempre uma merda só porque está condenado a acabar.
O semáforo estava vermelho mas pisou todos os travessões brancos da passadeira e passou para o outro lado, estava sem fôlego.
Parou, sentou-se no chão e depois deitou-se, a madeira do cabo da faca furara-lhe o bolso da camisa.
Quem te avisa teu amigo é.
Avisei-te, a mão do pai no seu coração.
Deitado na calçada agarrou na madeira e puxou, sabia que não o devia fazer mas puxou.
Deixou fluir o alívio, o alívio afinal às vezes pode ser eterno.

Wednesday, January 31, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 10

Os dedos estavam esticados na sua direcção.
Sentia-se quente e frio ao mesmo tempo. Eram tantas as bocas abertas na sua direcção, eram tantos os risos que ele sentia-se pequenino como um grão de areia no mar.
Mas não era, era ele o mar. Era ele o centro das atenções, o centro de tudo.
Sentia-se quente e frio ao mesmo tempo e apesar de não o pensar sabia que tudo iria ser diferente depois daquilo.
Uma voz alterou-se e tentou por ordem na balbúrdia, a cacofonia quase desapareceu.
Ouviam-se agora risos descompassados.
Mas os dedos continuavam a apontar e os olhos, sentia-se desaparecer em todos os pares de olhos que o cercavam.
Remexeu-se na cadeira, um desconforto húmido. Algumas gotas desfizeram-se no soalho.
A professora voltou a gritar e veio o silêncio.
Sentiu-se quente e frio ao mesmo tempo.

Tuesday, January 23, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 9

Tocaram à campainha.
Ele aproximou-se da porta e entreabriu-a, uma mão passou cinco caixas e a outra um saco com três garrafas. Passou a nota e não recebeu troco. Ouviu uns risinhos e a palavra “foda-se” no corredor enquanto fechava a porta.
A sala não era grande, sentou-se muito devagar na mesa de mármore, era a única peça de mobiliário onde se podia sentar. Os dois lençóis que o vestiam pousaram no chão.
Abriu uma caixa e começou a comer a pizza.
Já não saia de casa há dois anos e pensou que aquelas caixas e aquelas garrafas não teriam o mesmo destino que os outros lixos. Não passaria horas a recortar tudo com uma tesoura e a colocar em sacos de plástico. Ocupavam menos espaço no quarto cheio de sacos, cheio de outros lixos.
Abriu uma garrafa e bebeu-a. Um litro e meio. Pousou a caixa de comprimidos ao seu lado na mesa. Da outra vez tinha utilizado apenas uma lamela e dormira dois dias. Tem tudo a ver com a massa corporal.
Agora era uma caixa e não iria falhar. Abriu a segunda caixa e comeu ao mesmo tempo que deixava cair os comprimidos um a um na terceira garrafa.
Sentiu uma cólica mas ignorou-a. Estava perto da casa de banho mas agora já não era necessário. Não se iria levantar para passar uma hora sentado na banheira, a sanita partira-a há um ano. É tudo uma questão de massa corporal.
Comeu as outras pizzas enquanto bebia a segunda garrafa. Os comprimidos desapareceram todos.
Bebeu a terceira garrafa com o sorriso nos lábios. Quando os bombeiros chegassem gostaria de ver como o levariam dali. Eram quase trezentos quilos e pela porta não podia sair. Há quase um ano que era pequena demais.
É tudo uma questão de massa corporal, mesmo para se ter paz.

Monday, January 15, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 8

Estava a tremer de raiva.
Em cima da mesa ao lado da torradeira estava uma gota de sangue vermelho ao lado de uma unha, vermelha também.
Logo hoje a empregada não aparecera, um telefonema, e aquela voz arrussicada a dizer que a filha estava doente. Logo hoje que ela tinha combinado ir com as amigas à exposição. Logo hoje que ia conhecer aquela pintora que vivia em Inglaterra.
Maldita ucraniana, aquela dentista que lhe limpava a casa e cozinhava e lhe fazia as torradas de manhã.
Telefonara a dizer que a filha estava doente e ela tentara fazer as torradas sozinha. Uma delas ficara lá dentro presa a fumegar e ao tentar tira-la queimara o dedo, cortara-se e partira a unha. Uma das dez unhas perfeitas que tinha feito no dia anterior para estar tudo perfeito na exposição.
Soluçou e sentiu uma lágrima a derreter a maquilhagem. Cerrou os dentes e gritou.
Tudo perfeito, tudo estragado. Já não iria chegar a tempo à exposição, já não ia conhecer a pintora famosa, tudo por causa de uma torrada, tudo por causa de uma empregada que telefonara a dizer que a filha estava doente.
Pegou no telemóvel e disse, estás despedida.

Friday, January 12, 2007

PEQUENOS HOLOCAUSTOS 7

Estava sentado dentro do seu carro no local onde costumava estacionar sempre. Saíra à pressa e esquecera-se do casaco no apartamento. Na rua começavam a juntar-se pessoas, muitas pessoas. Gritavam mas ele não ouvia pois o rádio tinha o volume no máximo.
Descera as escadas a correr e já com gente atrás dele. Para trás ficara o casaco e o rosto dela, assustado.
As pessoas começaram a aproximar-se e a bater no carro, caiu a primeira pedra e o carro começou a balançar, um homem subiu para cima do tejadilho e começou a saltar.
O casaco em cima da cama e aquele rosto pequenino que o arrastava até ali uma vez por semana. Duas notas, um sorriso de criança. Era mais do que amor aquilo que sentia.
O vidro de trás do carro estalou, entrou o frio, entraram os gritos das pessoas.
O casaco em cima da cama e a chave do carro lá dentro.
A mãe da menina a entrar no quarto aos gritos. A correria pela escada. As pessoas, cada vez mais pessoas.
O carro ficara aberto, ficava sempre aberto, ele entrara e trancara-se. Ligara o rádio e agora o vidro de trás estava partido e as pessoas gritavam cada vez mais.
Chamavam-no porco.
E o casaco em cima da cama no apartamento, alheio a tudo. As chaves no bolso.
Viu paus nas mãos das pessoas. Partiram o vidro e pequenos estilhaços de sílica saltaram para todo o lado.
Olhou para cima e viu um rosto de criança colado ao vidro na janela do primeiro andar. Sentiu muitas mãos a agarra-lo e a puxa-lo para cima da calçada.
Fechou os olhos com força.